Capítulo 3 Igreja Medieval
3.1 Introdução
A Igreja medieval é herdeira das relações entabuladas entre o Império Romano e a Igreja em formação em princípios em princípios do terceiro século. Cerca de meio século de perseguições realizadas pelos imperadores entre 250 e 306, especificamente no Ocidente, com uma breve interrupção no meio deste período, propiciou uma fase de aproximação, inicialmente sob o signo da tolerância religiosa durante o século quarto consolidando um pacto. Os imperadores, como Constantino I (272-337), ao decretar o Édito de Milão (313), promove a unidade entre essas comunidades dispersas e retira a Igreja da clandestinidade. Teodósio I (341-395), por sua sua vez, eleva a Igreja ao tornar o Cristianismo como a religião oficial do Império no ano de 380, com o Edito de Tessalônica.
Os imperadores intervieram na Igreja e convocaram os concílios ecumênicos tais como Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Calcedônia (451). Inclusive, foi sob ordenação de Constantino I, no Concílio de Niceia, que ocorreu o nascimento do que hoje podemos chamar de Igreja Medieval, uma organização Institucional sob a égide e autoridade dos bispos de Roma.
No âmbito desses concílios se definiram os dogmas da Igreja: o conceito da Trindade1 e a cristologia, ou seja, a definição do caráter humano e divino de Jesus, que é ao mesmo tempo o Filho (Deus) e também humano. Dessa forma, a proteção e o controle imperial propiciaram a consolidação de uma ortodoxia cristã que definiu o que era certo e o que não se aceitava na teologia cristã. Uma unidade de crença e uma hierarquia estavam sendo definidas. Para o Império, a unidade era condição sine qua non, pois a boa relação com Deus garantiria a continuidade de Roma e de seu poder. As divergências não seriam toleradas, e o Império ofereceria em troca a sua proteção e apoio. proteção e apoio.
Essa postura gerou também a intervenção dos imperadores em assuntos eclesiásticos. Durante o seu reinado, Constantino, o Grande (272-337), interveio nas discussões teológicas. Seu filho e um de seus herdeiros, Constâncio II, adotou a linha cristã ariana que negava o dogma trinitário e perseguiu os bispos e teólogos que adotavam esta linha. Alguns bispos adeptos da doutrina trinitária se opuseram e foram exilados, tal como o bispo Atanásio de Alexandria, que viveu exilado por cerca de uma década e meia.
A doutrina trinitária prevaleceu e se consolidou com Teodósio, o Grande (379-395). As intervenções deste mesmo imperador geraram firmes reações do bispo de Milão, Ambrósio. Teodósio acabou aceitando as críticas e as punições e se penitenciou. Após a Morte de Teodósio e com a divisão do Império novamente, o Imperador bizantino, localizado na parte Oriental, Justiniano (527-656), interveio radicalmente em assuntos religiosos e não aceitou oposição. Esta política de imperadores que intervêm em assuntos clericais é denominada cesaropapismo, ou seja, imperadores que atuam ou interferem em assuntos do papado.
A Igreja se tornava protegida e, ao mesmo tempo, efetivamente dominada pelo poder imperial. Essa proteção dinamizou o crescimento da Igreja que já era intenso antes da aproximação com o poder imperial e gerou ampla difusão e um intenso processo de evangelização, dentro dos limites imperiais e além destes.
Após o Edito de Milão em 313, com Constantino, e o Edito de Tessalônica em 380, com Teodósio, percebemos um avanço no processo de expansão da Igreja, mas há evidências de que em muitos lugares ela não teria sido profunda. Em muitos lugares a conversão era superficial e se mesclavam crenças monoteístas e cristãs com inserções pagãs e politeístas. Como seria tal mistura religiosa possível?

O pesquisador Carlos Roberto Oliveira (1995) enfatiza que ocorre uma evangelização, por vezes superficial, que incorpora crenças pagãs, transforma deuses pagãos em santos da Igreja, num sincretismo2 que esconde resquícios das religiões que em teoria estavam sendo substituídas. O papa Gregório Magno (540-604) acentua a ocupação de espaços sagrados de outras religiões que devem ser purificados com água benta e depois transformados em igrejas, mantendo assim uma relação dos camponeses evangelizados com os antigos, e agora renovados, espaços sagrados.
Os autores divergem sobre as motivações da Igreja para incorporar essas apropriações: seria uma estratégia oriunda da cúpula religiosa que serviria para a conversão dos pagãos, ou seria a aceitação de uma tendência que teria emanado ao nível da religiosidade popular que, simplificando conceitos e crenças, realiza aproximações que facilitem as sínteses. Há a possibilidade de terem ocorrido ações na direção da Igreja, tal como a posição de Gregório Magno e também a síntese de conceitos, ocorrida no seio da religiosidade popular, seja no campo, seja nas cidades empobrecidas.
3.2 A Liderança Espiritual da Igreja
A Igreja primitiva, constituída por um conjunto de comunidades autônomas, foi liderada pelos apóstolos, que por sua vez delegaram aos bispos a posição de liderar a Igreja ao nível das cidades de porte médio do Império. A estrutura espacial foi delimitada pela divisão das províncias do Império Romano. O bispado seria uma diocese e coordenaria as cidades pequenas e as aldeias que circundavam essa unidade administrativa e religiosa.
A Igreja, a partir do século IV, moldou os ditames das sociedades europeias. Com isso, nas grandes cidades, foram criadas arquidioceses sob a liderança hierárquica de um arcebispo. No caso das grandes metrópoles, tais como Roma, Alexandria e Antioquia, que eram a um só tempo populosas e importantes, e também polos fundadores e propagadores do Cristianismo, originaram-se os metropolitanos ou patriarcas, que seriam os mais prestigiados líderes religiosos da cristandade, assim como fora a Igreja a responsável pela organização das festas litúrgicas e dos ritos que marcavam as diversas etapas da vida e da morte.
Após a fundação de Constantinopla, esta também foi elevada à condição de patriarcado, na condição de segunda Roma. Os patriarcas seriam a cúpula da Igreja, podendo ser considerados num total de quatro ou cinco: Roma, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e, menos prestigiado e influente, o patriarcado de Jerusalém. Nesse sentido, a partir do século IX podemos nos referir a Igreja como uma Ecclesia, ou seja, como uma comunidade de todos os cristãos, sendo que a partir do século XI se institui uma monarquia papal.
A construção de uma primazia ou superioridade do “bispo de Roma” não é imediata. A diocese teria sido fundada, de acordo a tradição, por Pedro, que seria o “líder” do grupo apostólico, nomeado por Jesus (Mateus c. 16, vers. 18). Fazendo uso de diversos outros versículos dos Evangelhos (tais como João c. 21, vers. 15-17; Lucas c. 22, vers. 32), os bispos de Roma foram gradualmente obtendo a primazia. Logo, os bispos de Roma seriam os sucessores de Pedro. Isso nem sempre era aceito pelos demais patriarcas, em especial o de Constantinopla que se considerava em condição semelhante ou próxima, mas que nunca reivindicou tal título.
Essas tensões não cessaram e no século XI causariam o Cisma do Oriente (1053), separando a Igreja em dois blocos: um no Ocidente medieval, sob a direção do Papado em Roma, e outro denominado ortodoxo grego, sob a liderança do patriarca de Constantinopla, no Império Bizantino e regiões próximas ao Oriente.
Desde o início o prestígio do patriarca de Roma era muito elevado. Damaso I (366-384) já insistia na aceitação da superioridade do pontífice romano, diante dos demais. Leão Magno (440-461) enfatizou a supremacia papal do Ocidente, o que não era aceito de maneira universal. A intenção de trazer à Igreja uma hierarquia monárquica sempre existiu, mas não foi plenamente aceita, senão após cerca de cinco séculos de história.
Não se pode chamar o patriarca de Roma como o único Papa, antes do pontificado de Gregório, o Magno (590-604), e mesmo esta posição não é aceita como consenso. A liderança e a obra evangelizadora desse pontífice nos permitem aceitá-lo como um marco na construção do prestígio do pontificado romano, que definirá este como hegemônico no Ocidente medieval cristão. Isso porque, foram as alianças firmadas entre Gregório Magno e a dinastia carolíngia que concedeu ao bispado de Roma a primazia e o papel de interlocutor.
Assim optamos por aceitar uma posição de prestígio elevado e proeminência do patriarca romano no Ocidente tardo-antigo e medieval, mesmo se no Oriente houvesse oposição e discordância. Os patriarcas de Constantinopla geralmente se consideravam os segundos em honra e posição, mas relutavam em aceitar o patriarca romano como superior de maneira plena.
3.3 As relações entre o papado e os imperadores
Os imperadores romanos, como já descrevemos no início deste texto, interferiam nas questões eclesiásticas, pois consideravam que as relações com Deus seriam vitais para a paz na terra. Ainda quando o paganismo era a base da religião imperial, os cultos e rituais eram vistos como uma questão fundamental para que a Roma (República ou Império) se mantivesse estável e não fosse invadida e derrotada por seus inimigos. A pax deorum3 dependia que esses cultos fossem corretamente realizados e os deuses saciados. A aproximação com o Cristianismo, que acaba por tornar-se a fé oficial em 380, levou aos imperadores a missão de não só proteger, mas também ter “razões de estado”, para que os cultos fossem devidamente realizados e que o Deus, agora único, não punisse a sociedade e engendrasse a desestruturação do Império.
As migrações bárbaras e a perda da parte ocidental do Império demandaram que Agostinho, bispo de Hipona (m. 430), tivesse que rever esses conceitos e dizer que haveria dois níveis, um da cidade terrena e outro da cidade divina: o que se via na terra era apenas um reflexo, um espelho de outro nível, superior e espiritual, que seria a Cidade de Deus, que dá nome à sua obra magna. Agostinho se baseou na concepção neoplatônica que concebia o mundo em níveis distintos, mesclados, mas diferentes: um nível mais elevado seria espiritual e seria o mundo das “ideias”, eterno e superior, onde os bens espirituais prevaleceriam e haveria a salvação da alma; outro nível mais terreno seria material ou carnal e seria apenas uma espécie de ilusão dos sentidos, um mundo formal e enganoso em que as pessoas poderiam se iludir e almejar prazeres e bens materiais ou sensoriais e perder a salvação da alma.
Nessa percepção, a queda e ascensão de impérios seria uma parte dessa visão material e efêmera da história. O bispo de Hipona concebeu a História universal baseado no texto sagrado. Seis dias da Criação seriam seis eras da História e o sétimo dia seria o tempo da Redenção, como em um juízo final. Para Agostinho e alguns de seus antecessores, e depois dele os seus analistas e seguidores, a sexta era teria começado com a Encarnação do Filho e terminaria com a segunda vinda de Cristo e o Juízo final. O sentido da História seria partir da Criação e se concluir na Redenção. Deus já definira, ao criar o mundo, qual seria o final do mesmo: a finalidade da História dependia de outros fatores, mas o principal deles seria o papel da esposa de Cristo na Terra, ou seja, a Igreja4 .
Um dos papas que viveram na época de Agostinho de Hipona, o pontífice Gelásio, em 494 enviou uma longa correspondência ao imperador do Oriente, Anastásio, em que dizia que deveria haver uma separação entre os poderes, tendo em vista que a ingerência do poder imperial nos assuntos eclesiásticos era excessiva. Como todo poder viria de Deus, de acordo a afirmação de Paulo de Tarso, na Epístola aos Romanos (cap. 13), e quem representava Deus na Terra seria o papa, este era o intermediário direto desse poder. Os erros e os pecados do próprio Imperador deveriam ser perdoados através das orações e pedidos do papa.
Gelásio definiu o poder papal como sendo superior e Deus sendo o maior e verdadeiro governante: “[…] sumus et verus Imperator […]”. Como a Igreja era a esposa de Cristo e sua representante na Terra, a ela caberia o papel de intermediar entre Deus e os humanos, e o poder que emanava de Deus era por ela outorgado aos governantes. Isso ainda ficou na “teoria”.
O papa Gregório Magno, no final do século sexto (seu pontificado foi de 590 a 604), também equacionou as relações de poder. O imperador seria para ele o governante universal e deveria ser acatado em questões temporais, ou seja, na política e no governo dos cidadãos, mas exclusivamente nas questões materiais, políticas e sociais. O governo dos assuntos espirituais caberia à Santa Igreja e aos seus representantes; nesse caso, especificamente, o Papa.
Cabe ressaltar que durante o processo de consolidação dos Reinos Germânicos a Igreja esteve preocupada em proteger os seus bens, consolidar a sua estrutura eclesiástica, resolver os conflitos temporais e espirituais, assim como definir normas sociais, como regras ao casamento e outros. Exemplo dessa atuação foi Gregório Magno, que consolidou a sua influência sob a maior parte dos reinos germânicos e prosseguiu na obra de evangelização dos povos do Ocidente. Esse pontífice enviou missionários ao norte da Europa, ainda profundamente pagã, e estabeleceu contatos com os visigodos recém-convertidos ao cristianismo trinitário, que sugerimos denominar católico ou universal, para ser melhor compreendido pelos leitores. Estabeleceu vínculos com os monarcas germânicos que eram pagãos ou adeptos do cristianismo ariano e os incitou a conversão.
3.4 A construção da doutrina hierocrática
A Igreja não estava consolidada e seus passos tiveram de se dar sob a custódia e proteção dos governantes laicos. O pontífice romano agora denominado papa conseguiu obter bastante autonomia em relação aos imperadores bizantinos ou romano-orientais, mas ficou à mercê de povos que se instalaram na península itálica, tais como os lombardos, ainda não convertidos ao cristianismo.
Nesse contexto acontece a aproximação dos papas e dos reis francos. Como já relatamos no tema um, no reino franco estava ocorrendo a deterioração do poder da dinastia dos merovíngios. E a sucessão destes estava sendo almejada pelos mordomos (major domus, um tipo de primeiro ministro) da corte real. Um desses mordomos era Carlos Martel, vencedor de uma batalha contra os muçulmanos em Poitiers (753), que teria impedido a ocupação do sul da Gália (atual França) pelos considerados infiéis.
Mesmo sendo tal afirmação um exagero e podendo ser vista quase como um mito, em razão das pequenas proporções da pretensa “invasão” muçulmana, gerou prestígio à família cortesã. O filho e herdeiro de Martel foi Pepino, o Breve, que se fez consagrar como rei e acabou com a dinastia merovíngia. Para melhorar a sua condição e ser considerado legítimo, ele se aproximou da Igreja e ajudou o papa a se libertar dos lombardos. Em seguida concedeu ao papa um território como herança e com direitos a posse e domínio deste: o Patrimônio de São Pedro.
Em troca foi diversas vezes consagrado como rei, recriando-se nessa época o ritual de unção dos reis, à maneira bíblica, conforme sugerido na Hispânia visigótica por Isidoro de Sevilha (m. 636) e aplicado em alguns dos reis visigodos no século sétimo, como já descrevemos no primeiro tema. A aliança dos reis carolíngios e do papado será mantida e recriada de diversas maneiras através dos tempos. O sucessor de Pepino, o Breve, seu filho Carlos Magno, será coroado e ampliará o seu reino de modo nunca antes ocorrido entre os reinos germânicos. O papa articula a sua consagração como imperador e depois, através de diplomacia e cessão de territórios, o imperador bizantino acata e consolida esse acerto.
Com a aceitação do imperador do Oriente e as bênçãos da Igreja, o imperador ocidental, nesse caso um rei franco, obtinha a legitimação de seu poder. Estava sendo criado o Império Germânico, no qual inicialmente os papas possuíam um papel secundário, mas que logo se definiu como uma parceria entre papas e imperadores. Enquanto o imperador era forte, tal como Carlos Magno e, de maneira menos intensa, seu filho Luis, o Piedoso, a Igreja cumpriu a função de legitimar o poder imperial, mas foi manipulada por este. Isso não agradava o clero, mas este preferia ser protegido pelos imperadores e manter a hegemonia religiosa.
Carlos Magno intervinha na escolha dos bispos, imiscuía-se nos assuntos eclesiásticos e era um imperador cesaropapista, que seria o chefe “de fato” da Igreja. Seu filho Luis já não teve a mesma condição, mas, ainda assim, governou a maior parte de seu reinado, sem dar atenção às queixas e protestos clericais.
A Igreja tinha o controle do saber, pois a maioria da população era iletrada. Entre os letrados, a maioria absoluta estava nos quadros clericais. Eram monges ou membros das camadas superiores do clero secular. Com isso a Igreja começava a criar elementos teóricos para consolidar seu domínio e justificar sua preeminência na sociedade. Um dos exemplos desse esforço para inverter a posição da Igreja foi a definição da condição de reis e imperadores por vontade divina.
Essa construção legitimava as monarquias e o império, mas oferecia à Igreja o importante papel de sacralizar os governantes, visto que “todo poder vem de Deus” e a única intermediária legítima entre Deus e a humanidade seria a Igreja. Outro exemplo seria a construção de provas que legitimassem o controle do Ocidente Medieval pela Igreja, como herdeira do Império Romano, na parte ocidental deste. Trata-se do documento “Doação de Constantino”, que se acredita ter sido redigido no período carolíngio (século oitavo), mas se sugere ser um documento concedido pelo imperador Constantino, o Grande (ou seja, do século quarto).
O documento relata que o Imperador foi acometido por uma grave doença de pele, que se supõe ser a lepra. O papa Silvestre recomenda que ele se banhe algumas vezes num rio (Tibre) e ele se cura. A gratidão do imperador é imensa: redige um documento, pelo qual concede a maior parte do Império Romano do Ocidente ao papa e aos seus sucessores, de maneira integral e pela eternidade. Em seguida Constantino parte para o Oriente e, como substituta de Roma, funda Constantinopla, que se torna um legado da Igreja.
O que os reis carolíngios haviam feito de maneira parcial, criando o Patrimônio de São Pedro, era ampliado, de maneira retroativa. O documento não surtiu efeito no período carolíngio, mas na sequência dos fatos serviu como um dos argumentos para o processo de construção de uma doutrina hierocrática e a plenitude do poder, que adiante analisaremos.
3.5 A ordem de Cluny e a reforma da Igreja no Ocidente medieval
A maior e mais organizada ordem monástica do ocidente medieval era a ordem beneditina, criada no sexto século por Bento de Núrsia, na Itália. Os beneditinos terão muita importância na expansão e no prestígio da Igreja. Essa ordem fora a responsável pela criação da Regra de São Bento, uma diretriz composta por 73 artigos. A maioria dos mosteiros do século VII seguiam essa regra, estando determinados a viverem em comunidades religiosas (cenobitismo), e a respeitarem a autoridade absoluta do abade que era eleito no seio da comunidade.

Enfatizavam uma vida regrada pela oração, pelo trabalho e pelos estudos. Boa parte de seu tempo era dedicada a copiar livros e com isso os mosteiros beneditinos ajudaram a conservar e preservar obras de importância religiosa e cultural, inclusive do mundo clássico e que não se relacionavam com a religião. A ordem existe até hoje e mantém muitos de seus princípios e valores. No Brasil há diversos e prestigiados mosteiros de São Bento. Falaremos um pouco mais dela no tema cinco.
No seio do beneditismo surge o núcleo de um movimento que terá enorme importância na vida religiosa e cultural do Ocidente medieval. O duque Guilherme da Aquitânia e também conde palatino de Borgonha funda uma abadia em Cluny, na região borgonhesa, em 910. A partir dessa abadia se criará, nos séculos seguintes, uma ordem monástica que propunha reformas em diversos âmbitos da Igreja. Uma de suas alegações era a interferência dos poderes locais, na figura do Imperador, na escolha e na ordenação de cargos da alta hierarquia eclesiástica, tal como os de abades e de bispos.
Esse movimento, encabeçado pelos papas Nicolau II (1061) e Gregório VII (1085), propunha que não se negociassem esses cargos, que eram cobiçados pelas famílias nobres e pelos reis e imperadores, visto trazerem, com o cargo, a posse de bens, terras e direitos pecuniários. Com isso, em 1059, Nicolau II consegue que a eleição dos cargos eclesiásticos fosse realizada por um colégio eleitoral.
O negócio com cargos e bens eclesiásticos foi denominado simonia. A nobreza se opunha a essa posição, pois impediria que os segundos filhos dos nobres pudessem ser ordenados. O intuito da nobreza era fortalecer o poder e as riquezas de uma família com a ordenação de alguns de seus membros como bispos e abades, assim como perpetuar a dominação senhorial no seio da Igreja através da transmissão desses cargos como heranças.
Os monges de Cluny também almejavam aclarar rigidamente a diferença entre leigos e clérigos, exigindo a castidade e a continência sexual dos clérigos. Até o ocasião em que o movimento se expande, percebemos que a castidade e o celibato eram exigidos apenas dos membros do clero regular (monges), mas não eram exigidos de padres, bispos e demais elementos do clero secular, daqueles que estavam mais perto da povo, no seio da comunidade.
Tal exigência se relacionava com a anterior, pelo fato que se propunha a manter no seio da Igreja apenas clérigos, que se afastassem dos prazeres, da carnalidade, dos bens materiais e do poder político. O tema do desregramento e da conduta carnal dos clérigos era denominado nicolaísmo e enfatizava a castidade clerical. Ainda assim, o Papa Nicolau II (1061), proibiu que os fiéis assistissem a missa de clérigos casados.
A ordem de Cluny é considerada por muitos autores como um dos pilares da criação do caminho de Santiago e, por consequência, impulsor do processo lento e gradual da reconquista cristã na Península Ibérica. Os mosteiros de Cluny ou aqueles que se ligaram com essa ordem floresceram ao longo do caminho de Santiago e influenciaram a religiosidade, seja na Península Ibérica, seja no Ocidente medieval.
No âmbito da reforma cluniacense percebemos que, em poucas décadas, o prestígio da abadia propiciou a ascensão de alguns de seus elementos a cargos elevados e, depois de um século, começamos a encontrar papas eleitos que faziam parte do movimento. Estes papas quiseram alterar a forma de se eleger os papas e impedir que os imperadores interferissem na escolha dos papas e dos bispos do Império. A eleição, como falávamos, passou a ser feita pela Cúria romana, um colegiado de cardeais que, a partir de 1059, passou a eleger os papas e ajudá-los a governar a Igreja.
Tal conflito se aguçou no pontificado de Gregório VII (1073-1075) e o enfrentamento se deu entre ele e o jovem imperador Henrique (1050-1106). Este imperador, como muitos antes dele, concordava com várias das propostas reformistas, mas se opunha à perda de influência na escolha e eleição de bispos e abades, pois geraria fraqueza para o imperador. Cargos eclesiásticos eram fonte de poder e riquezas e não poder nomear seus ocupantes traria fragilidade ao supremo governante político. Alguns bispos tinham participação num colégio eleitoral que elegia os sucessores do imperador, ou seja, mesmo sendo clérigos, influenciavam na política.
O embate teve diversas alternativas. Inicialmente o papa Gregório VII excomungou o Imperador Henrique IV e esse se arrependeu indo a pé em 1077, em pleno inverno, ao palácio papal, em Canossa, pedir perdão. Depois o imperador volta atrás e destitui o papa Gregório VII e o manda exilar. Começa o que viria a ser chamado o conflito das Investiduras, para definir quem nomeava os bispos no Império.
O conflito gerou diversas situações, alternando as posições, uma vez que, através do Dictatus Papae, Gregório VII proclamou a sua supremacia sobre toda a Cristandade, assim como sobre os assuntos espirituais e temporais, ou seja, relativos ao Imperador.
Isso só se resolverá no século seguinte, em 1122, com a concordata de Worms, assinada pelo papa Calixto II (1065-1124). Essa ocasião coloca um fim à Querela das Investiduras e o papa sai em posição fortalecida e define a sua condição de efetivamente escolher os bispos, com a anuência posterior do imperador.
Em paralelo, a Igreja oriental estava se separando do Ocidente e criando a Igreja ortodoxa grega nesse mesmo período (1053). Esse movimento ficou conhecido como o Cisma do Oriente, criando assim a Igreja Romana e a Igreja Ortodoxa. Essa separação prosseguirá até a contemporaneidade. Ironicamente a fragmentação da Igreja coincidiu com o período de seu maior prestígio. Entre os papas que sucederam a Gregório VII, estava Urbano II, que no concílio de Clermont conclamou aquela que viria a ser a primeira Cruzada (1095-1096)
3.6 O controle da sociedade, o controle do corpo e o controle das armas
A reforma cluniacense era um projeto amplo da Igreja que agora aflorava com força e gerava amplas repercussões na sociedade. A Igreja concebia a sociedade cristã como o veículo que serviria de espaço para a segunda vinda de Jesus. Nesse imaginário religioso, a redenção dependia de que a sociedade alterasse seus comportamentos e fosse, para tanto, devidamente transformada. O corpo social deveria ser purificado, e o corpo individual também. Nos dois níveis dever-se-ia manter a “saúde pública” evitando que os vícios capitais, termo que significava pecados, os desvios de comportamento e as más condutas, impedissem a segunda vinda de Jesus.
Entre os séculos XI e XIII, houve uma multiplicação na construção de edifícios religiosos, fazendo com que o poder da Igreja se propagasse e esse controle fosse mais efetivo. Controlar os corpos era educar os leigos e controlá-los. A sexualidadeera apenas e exclusivamente permitida permitida àqueles que não ocupassem cargos eclesiásticos, mas apenas com fins reprodutivos. O prazer se torna ilícito. O corpo era sagrado e deveria ser um templo.
E o mesmo se daria com a violência. Numa sociedade composta por sacerdotes (clero), trabalhadores (vilões, servos e outros) e nobreza guerreira, este último segmento deveria ser educado e desviado da pura e simples violência, para ser direcionado a causas mais “nobres”, justas e cristãs. O modelo de cavaleiro cristão se delineia e começa a ser elaborado.
Nesse imaginário o cavaleiro cristão deveria defender os fracos e os indefesos, idosos, donzelas e crianças, e não os oprimir ou saquear. Deveria batalhar pela fé e pela verdade, mesmo se junto com isso houvesse proveito material, vantagens e saques. Uma das estratégias da Igreja foi o controle dos tempos e dos espaços permitidos para a guerra. Paz de Deus e trégua de Deus eram conceitos que criaram um calendário restritivo à luta armada: dias santos ou finais de semanas e muitas datas foram proibidas para exercitar a guerra e atacar seus adversários.
Espaços como igrejas, mosteiros, cemitérios, orfanatos e escolas foram definidos como protegidos. E determinados setores da população não poderiam ser atingidos: clérigos, mulheres, crianças, pessoas idosas e, de uma maneira geral, os que não fossem bellatores. A ideia era impedir a violência gratuita e desenfreada contra populações indefesas, contra o patrimônio da Igreja e coagir os excessos. A teoria e a prática social nem sempre coincidem, mas há uma lenta e gradual imposição desses padrões, de forma relativa e parcial, pela Igreja no seio dos homens de armas e dos governantes. Desse modo, a Igreja sai como força vitoriosa e sem perdas excessivas.

A outra atitude foi exportar a violência para fora do sistema. Já que havia cavaleiros sedentos para lutar, conquistar ou saquear, ficaria melhor se o fizessem contra os inimigos da Cristandade: infiéis como os muçulmanos, pagãos na periferia da Europa e até, se preciso fosse, contra cismáticos e hereges.
Os séculos X a XII foram o palco dessas ideias e das transformações que atingiram todos os setores da sociedade. É no século XI que os cavaleiros emergem como grupo social, como um estamento de guerreiros oriundos da nobreza já existente ou egressos de outros segmentos sociais que ascendem à condição de bellatores e que, ao adquirirem a espada e sagração como escudeiros ou cavaleiros cristãos, recebem uma série de normas e atitudes como parâmetros comportamentais. No século XIII a cavalaria se torna hereditária, como um círculo mais restritro, mas ainda assim era o único meio de acesso à aristocracia que não exigia o sangue. Um homem leigo poderia se tornar cavaleiro como título recompensado pelo rei pelos bons serviços prestados.
A sagração do cavaleiro na Igreja tenta condicioná-lo a agir dentro de uma ampla gama de valores e atitudes cristãs: defender os fracos, tais como idosos, mulheres, crianças, inválidos; não ferir clérigos e nem usurpar bens eclesiásticos sob nenhuma hipótese; combater os inimigos da cristandade, os pagãos ou infiéis e, em particular, os hereges que contaminam a comunidade cristã.
O controle e o direcionamento da violência para “causas justas e sacralizadas” acabam por criar uma aparente justificativa para a guerra, que deixa de ser apenas violência e agora adquire o hábito de justa, de correta e desejada por Deus. Surgem ordens de monges cavaleiros, tais como os Hospitalários e os Templários que se direcionavam para o Oriente, no sentido das Cruzadas, ou as diversas ordens militares e religiosas criadas na Península Ibérica, tais com as ordens de Santiago, Calatrava, Cristo e Avis, entre outras. Monges cavaleiros se dedicam a combater os infiéis e a expandir a fé verdadeira, pela espada. Este exército sagrado será engajado na defesa da fé verdadeira e da sua expansão.
O tema das Cruzadas e da Reconquista será analisado no tema seis desta obra
3.7 As Cruzadas
O conceito de guerra sagrada não é novo. Na sua origem, o conceito da luta do homem contra as tentações e desejos, contra os pecados (na expressão da época, “vícios”) criava na sociedade cristã a sensação de que havia uma luta cósmica, entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. Nas palavras de Hilário Franco Junior, na obra Idade Média: nascimento do ocidente (1995), há três conceitos-chave para compreender o medievo: o contratualismo, o simbolismo e o belicismo. Falamos um pouco disso nos temas anteriores. O belicismo é o conceito-chave para entendermos as Cruzadas e a Reconquista ibérica. A luta se travava em alguns níveis: um é terreno e imediato, visível e material, nos campos de batalha. Outro é no âmbito do simbolismo, mais transcendental e espiritual: a Cristandade seria o exército do bem e os infiéis, tanto os muçulmanos quanto os judeus, seriam o seu oposto, o campo do erro e do mal.
A sociedade cristã no ocidente medieval estava numa fase de crescimento e aumento demográfico. As migrações de povos tinham atenuado e mesmo se acomodado. Ocorrera uma melhoria na produção agrícola com um relativo aumento na oferta de alimentos. Isso estabilizara um pouco o sistema, mas a demanda por mais terras cultiváveis era forte.
A diminuição da mortandade causada pelas guerras, pelas migrações e pela fome gerara mais gente sem terras. Os filhos de nobres que não herdavam buscavam formas de subsistir: casamentos com herdeiras de bens imóveis; conquistas de novas terras; e, derivados disso, o saque e o botim também. Há mais candidatos à posse das terras do que terras disponíveis. E no tema da mão de obra para cultivar as terras, as novas condições começam a gerar excedentes de trabalhadores, pois a própria estrutura do sistema feudal não absorvia mais novos braços.
Sobram guerreiros e sobram trabalhadores. A incapacidade de integrá-los começa a propiciar o aumento da violência. Bandos de guerreiros, acompanhados por filhos de camponeses que foram ejetados de suas terras, pela falta de condição de absorvê-los. A liderança clerical se apercebe do problema e tenta controlar a violência com as regras que alinhamos no tema terceiro: Paz de Deus e Trégua de Deus. O objetivo era reduzir os dias e limitar os espaços nos quais é permitida a guerra. Assim, além de tentar minimizar os tempos e locais de combate, ainda intentava controlar a violência da nobreza, sacralizar a cavalaria incutindo-lhe rituais e ideais de justiça e fé. Aos poucos essa estratégia traz resultados, mas não é suficiente. Urge canalizar a violência para fora do sistema, mediante a ideia de propagação da paz, do perdão e da disciplinarização.
Outro aspecto que nos auxilia a entender o movimento das Cruzadas é o costume peregrinação, que na Europa do século XI tinha como destino Jerusalém. Entretanto, essa tradição existe desde o Baixo Império.
Havia locais considerados sagrados e adequados para serem visitados e cultuados: túmulos de santos e mártires da cristandade, ou dos apóstolos, mas principalmente os lugares pelos quais Jesus passou e foi sepultado. Os fiéis que residiam no continente europeu afluíam para os lugares sagrados relacionados com os primórdios do cristianismo: Nazaré, Belém, Jerusalém e demais localidades, nas quais Jesus vivera e onde se supõe que estejam enterrados seus restos mortais. Destacam-se o denominado Santo Sepulcro, que seria a tumba de Jesus, e a Via Dolorosa, que é o trajeto percorrido por ele entre seu julgamento e sua crucifixão. Esse trajeto era em muitos períodos perigoso e inóspito, ao fazer referência a uma viagem para Jerusalém. Mais tarde esse movimento ficou conhecido como uma "passagem para ultramar".
A peregrinação era o mais alto grau de penitência, e aos criminosos e pecadores de todos os tipos se recomendava realizá-la como forma de obter o perdão divino. Ou seja, os peregrinos que visitavam o túmulo do Salvador receberiam a garantia de remissão dos pecados. Assim, fiéis em geral almejavam também peregrinar para se alçarem mais alto nos degraus da espiritualidade.
Esse movimento recebeu um estímulo para crescer com a cristianização do reino da Hungria, que abriu um caminho mais seguro. E uma rede de mosteiros foi criada oferecendo hospedaria aos peregrinos, por volta do ano 1000.
No aspecto do conceito de guerra santa, temos que refletir que se tratava de algo pouco espiritual e que se contradizia com a postura pregadora, pacífica e cordata dos primeiros cristãos. Essa postura foi formatada aos poucos e bastante influenciada pela definição feita por Agostinho, bispo de Hipona, no começo do século V, que criara a figura da guerra justa. Seria esta uma guerra defensiva ou permitida, caso fosse para reparar um mal feito anteriormente, e justificada, pois estaria fazendo justiça diante de um erro. Seria um combate efetivado sob a ordem e em nome de Deus. Como Agostinho combatera diversas heresias, considerava que o combate aos hereges renitentes, que se recusavam a aceitar as pregações evangélicas da Igreja, era justificado.
O conceito não abarcaria infiéis, visto o herege ser alguém batizado e que já teria feito parte da comunidade cristã, mas o termo foi estrategicamente alargado para conter a luta contra os infiéis. O papa João VIII, em 878, estimulou esta percepção ao afirmar que haveria recompensas celestes aos defensores da fé. Assim, o conceito de guerra santa paulatinamente estava sendo moldado.
Entre as motivações imediatas havia um franco avanço de muçulmanos nos espaços da Cristandade. A Península Ibérica, que denominamos Hispânia, na qual pertencia ao Reino Visigodo, fora ocupada por invasores muçulmanos e que em 711 colocaram fim ao reino. No leste, o Império Bizantino tinha sido parcialmente derrotado e perdera muitos territórios ao que viria ser o califado de Damasco (tema 4). O império se reorganiza, consegue conter os avanços dos muçulmanos e, mesmo sem recuperar os territórios perdidos, se mantém e estabiliza. Até o início do século XI, os bizantinos, mesmo com o território diminuído, superam os adversários. Alguns povos tentam invadir o império e são contidos.
No século XI, nas décadas anteriores às Cruzadas, um novo elemento havia aparecido e prenunciava-se como ameaçador ao Império Bizantino e ao cristianismo: recém-convertidos ao Islã, os turcos seldjúcidas, seguidores de um islamismo radical, haviam conquistado largos territórios e ocupado partes da Pérsia, da Síria e da Ásia Menor. Avançaram na direção de Constantinopla e derrotaram um exército bizantino em Manzikert em 1071. Ocuparam a maior parte da Anatólia e conseguiram se apoderar de Jerusalém em 1078.
Atemorizados, os bizantinos pedem ajuda ao papa e aos governantes cristãos do Ocidente. O papa Gregório VII considera a possibilidade de reunificar a Igreja tendo em vista o cisma do Oriente de 1054, que separava ortodoxos do Oriente e católicos do Ocidente. No entanto, fragilizado com o conflito das Investiduras, nada faz para ajudar.
Novo apelo é feito pelo imperador Aleixo Comeno (1056-1118), no Oriente, ao Papa Urbano II (1042-1099), no Ocidente, em 1095, que concebe o gesto que foi interpretado pela historiografia oficial como sendo o estalar do movimento das Cruzadas. Convoca um concílio eclesiástico na localidade de Clermont-Ferrand (no sul da atual França) em 1095. Nesse momento há rumores não comprováveis de que os turcos molestavam os peregrinos, impedindo o livre acesso aos lugares sagrados. Essa notícia ajuda a criar certo apoio.
O imperador, em conflito com o papa, não era um aliado viável, daí a razão da escolha do local do concílio no reino da França. O papa declara a decisão plenamente endossada pelos cardeais e bispos presentes de realizar uma cruzada, assim como surge também um motivo para amansar os cavaleiros, dos quais falávamos que precisavam canalizar sua raiva para fora do sistema, ou seja, contra os inimigos da Cristandade.
As Cruzadas pretenderam não somente libertar a Terra Santa e tomar posse dos lugares sagrados do cristianismo, tal como o Santo Sepulcro, que, desde a derrocada dos bizantinos diante dos muçulmanos, estavam sob o controle de governantes islâmicos. Do mesmo modo, tinha como objetivo solucionar o problema do crescimento populacional e a falta de terras, vistas a necessidade de obtenção de novos domínios. Ademais, os mercadores italianos as patrocinavam visando conquistas novos mercados para os seus produtos. Desse modo, percebemos que os motivos das Cruzadas não são puramente religiosos, mas também políticos e econômicos.
A pregação começou na França e atingiu o Império, mas em forma de uma cruzada popular. O pregador conhecido como Pedro, o Eremita (1050-1115), liderou um amplo grupo de elementos, a maioria das camadas pobres. Eram voluntários, homens mulheres e crianças, que estavam reunidos na região de Orleans e de Champanhe que partiram em direção à Terra Santa. Muito misticismo e religiosidade popular geraram um grupo inicial que, após saquear e cometer atos de violência no caminho, acabou sendo dizimado facilmente pelos turcos na Ásia Menor, enquanto Pedro, o Eremita, conseguiu fugir de volta para a França.
Houve também uma cruzada denominada germânica, misturando nobres decaídos e elementos populares que hostilizavam os judeus, entrando nas cidades, saqueando e intimando os judeus a se converterem à força. A maioria desses judeus opta pelo autossacrifício, imola sua família e se mata. Estimam-se cerca de seis mil vítimas judaicas no período da cruzada germânica. O pretexto desses cruzados era que havia infiéis no seio da cristandade e se deveria purificar a sociedade antes de combater os outros inimigos da cruz no Oriente. Os movimentos populares são vistos pelo imperador, pelos reis e pela nobreza com muita cautela.
A primeira cruzada oficial (1096-1099) organizada pela Igreja teve a presença e a liderança de grandes nobres, visto a promessa de santificação do Papa Urbano II para aqueles que participassem. Mesmo assim, nem o imperador, nem os reis a apoiaram ou participaram dela. A maior parte era francesa. Cruzaram pelo continente a Europa e chegaram a Constantinopla (1097). Um choque cultural ocorreu entre os bizantinos e os ocidentais. O imperador, preocupado, logo os envia para Anatólia. Os cruzados são bem-sucedidos no aspecto militar. Vencem os turcos e ocupam Antioquia (1097) e Jerusalém (1099).
A tomada de Jerusalém é feita com extrema violência: não são poupadas as populações civis, sejam mulheres e crianças, sejam clérigos de qualquer denominação. Judeus, muçulmanos, cristãos orientais são igualmente chacinados sem mercê. O conceito de Paz de Deus apregoado pelos monges de Cluny não vale aqui. A recomendação do Papa Urbano II era de que se fossem bons cristãos os mesmos seriam recebidos por Deus e seriam recompensados. Se fossem hereges ou pagãos pagariam no pós-vida.
O autor Amin Malouf, na obra As cruzadas vistas pelos árabes, descreve as crônicas das cruzadas através do olhar de muçulmanos. Estes definem os cristãos em dois grupos: os Rum, termo derivado de romanos, que qualifica os bizantinos, pois mesmo sendo adversários eram civilizados e éticos; e os Franj, termo derivado de francos, que equivaleria aos cruzados vindos do reino franco ou da França, que eram violentos e sem nenhuma ética guerreira. É muito interessante perceber que esse contraste traz percepções diferentes de dois grupos cristãos, ou seja, não classifica a alteridade (o outro) pela religião apenas, mas pela forma de se relacionar com os demais seres humanos.

O sucesso inicial da cruzada gerou a ocupação de espaços e a criação de quatro Estados: o reino latino de Jerusalém, o condado de Edessa, o condado de Trípoli e o principado de Antioquia. líder da cruzada, Godofredo de Bulhão, foi eleito e coroado rei, mas viveu apenas um ano. Toda a estrutura desses Estados era formatada sob as práticas feudo-vassálicas, no modelo francês. Havia hierarquias feudais, votos de vassalagem e distribuição de terras aos guerreiros que serviram aos senhores na conquista. O rei de Jerusalém seria o suserano superior, mas nos reinos havia autonomia. O que não havia eram servos ligados aos senhores através de juramentos de servidão, pois os camponeses eram na sua maioria muçulmanos locais.
Nessa época e no Oriente latino, surgiram as ordens militares religiosas que se ampliariam e surgiriam em outros locais da Cristandade, tal como na Península Ibérica. As ordens surgidas no oriente foram várias, mas salientaremos duas: os Templários e os Hospitalários. Pretendiam proteger o caminho de peregrinação e os lugares santos, acolher os peregrinos e enfrentar os infiéis muçulmanos. As ordens crescerão e se fortalecerão tanto numericamente como financeiramente, perdendo aos poucos os seus objetivos.
A ocupação dos reinos não se manteve e há avanços e retrocessos na presença cristã no Mediterrâneo oriental. A segunda cruzada (1147-1149) fracassa e, na esteira desta, Jerusalém é tomada por Saladino, o sultão do Egito, após a derrota em 1187.
A terceira cruzada (1188-1192) mobiliza o imperador Frederico I - Barba Ruiva ou Barbarossa -(1122-1190), que morre no trajeto, o rei da França, Felipe II Augusto (1165-1223), e o rei inglês Ricardo Coração de Leão (1157-1199). Saladino consegue resistir e faz um acordo de livre circulação de peregrinos aos lugares santos, mas não perde a soberania da região, assim o Ocidente reconquista parcialmente os domínios cristãos na Terra Santa.
A quarta cruzada (1202-1204) é um exemplo de desvio de objetivos e desvirtuamento do sentido religioso. Mobilizada pelo papa Inocêncio III (1160-1216), é utilizada pelos venezianos como expedição contra Constantinopla, tendo em vista que os cruzados não tinham como pagar o transporte à Terra Santa e os venezianos haviam perdido o monopólio comercial dentro do Império Bizantino, que o cedera aos genoveses. Assim, por duas vezes Constantinopla é tomada e saqueada. Estabelecem-se dois impérios orientais: o Latino, na prática dominado pelos venezianos, e o Grego. Isso se deu por meio século, até que foram novamente unificados, seguindo enfraquecidos e correndo sempre o risco de ocupação pelos turcos.
As demais cruzadas seguiram fracassando. O rei francês Luis IX (1214-1270), denominado São Luis, foi líder de duas expedições cruzadas. Uma é a sétima (1248-1254), dirigida a Damieta no Egito, que é tomada (1249). Em seguida o monarca é capturado em Mansurah (1250) e teve que ser trocado pela cidade antes conquistada, entregue como resgate.
A oitava cruzada (1270) liderada pelo mesmo rei Luís IX terminou com a sua morte por disenteria antes de realizar o cerco de Túnis (1270). Os cruzados serão expulsos da última fortaleza na Terra Santa, em 1291, com a tomada de Acre (Ako), e permanecerão apenas na ilha de Chipre, por mais algum tempo.
A obsessão pela cruzada não desapareceu e muitas vezes houve planos de retomar a região denominada Terra Santa. Em alguns concílios e nas ideias de muitos pensadores e líderes cristãos aparece um projeto cruzadístico. Trata-se de um ideal que demarcou a maneira de pensar e de agir do cristão europeu e seguiu justificando uma superioridade deste em relação aos infiéis, não cristãos e não europeus.
Cabe também ressaltar os princípios que nortearam os movimentos das cruzadas, como a vontade de expansão da Cristandade de rito latino ao Oriente e assim reforçar o poderio papal e a monarquia pontifícia, os interesses dos mercados italianos em expandir os seus comércios e a necessidade de novos domínios devido ao crescimento populacional exorbitante na Europa a partir do século XI.
Vale ressalvar que houve movimentos e projetos militares de expansão e de conversão, seja no Báltico, seja na direção leste, que foram denominados como cruzadas. Por razões de espaço, optamos por enfatizar apenas as Cruzadas do Oriente e a Reconquista da Península Ibérica, por suas íntimas relações com a formação da América Latina e com o Brasil.
3.8 A oposição: os imperadores, os cismas, a crítica, a hierocracia e as heresias
Após um longo período de supremacia da Igreja, com o I Concílio de Latrão (1123) e a Concordata de Worms (1124), em que a Instituição adquiriu plenos poderes, os séculos XII e XIII marcam o seu apogeu, mesmo tendo que se confrontar com a resistência e oposição de vários tipos.
Os guerreiros não se tornaram subitamente dóceis e obedientes às normas clericais. Os reis e imperadores não se submeteram passivamente às ordens dos papas e de seus representantes. Tal oposição foi enfrentada com firmeza e, nesse confronto, se alternaram avanços e retrocessos.
Os imperadores, desde o conflito das Investiduras de Worms (1224), que já analisamos acima, opuseram-se ao poder excessivo do papa e do episcopado nas questões políticas e no cotidiano da sociedade. Dois dos maiores opositores do papado foram Frederico Barbarossa, conhecido como Frederico I (1122-1190) ou Barba Roxa, que veio a falecer no caminho para a terceira cruzada, e seu neto Frederico II (1194-1250), que viveu a maior parte de seu reinado no sul da Itália, numa corte na qual muçulmanos, normandos e judeus transitavam e atuavam com muita liberdade.
Outro exemplo de oposição imperial é o caso do imperador Luis IV da Baviera, que recebeu em sua corte e protegeu dois pensadores (filósofos e teólogos, efetivamente) que contestavam a ingerência dos papas no governo laico e nos temas não espirituais: o professor universitário italiano Marsílio de Pádua e o teólogo franciscano de origem britânica O tema das Cruzadas e da Reconquista será analisado no tema seis desta obra Guilherme (William) Ockham.
Ambos estavam vinculados às universidades e transitaram pela de Paris. Suas ideias foram consideradas heréticas e os dois foram convocados à corte papal para esclarecimentos. Cientes dos riscos, ambos – em momentos distintos, mas próximos – se refugiaram na corte imperial. Protegidos por reis e imperadores, esses e outros pensadores refletiram sobre o conceito, ainda embrionário nessa época, de separar o poder secular (político) do poder clerical (ou eclesiástico). Ambos são responsáveis pela gênese do movimento que se desencadeará na criação dos ideias do Estado Moderno com a separação de ambos os poderes.
Para a maioria deles a Igreja deveria apenas lidar com as questões espirituais e ser uma comunidade de fiéis, sem se intrometer no governo e nas questões seculares. Isso permitiria à Igreja ser pura e santa, não se corrompendo com temas profanos.
Esse tipo de crítica cresceu depois do ano Mil. Muitos esperavam a segunda vinda de Cristo. Na esteira desse evento não concretizado, muitas vertentes religiosas populares apareceram. Algumas delas se enquadraram no seio da Igreja. Já outras foram muito críticas e não aceitavam o poder da Igreja. Consideravam a Igreja muito rica para ser a verdadeira Igreja de Jesus e dos apóstolos, que eram gente humilde e espiritual, não identificada com a riqueza e a ostentação que viam na Igreja medieval.
O modelo da pobreza apostólica gerou questionamentos: seria essa Igreja rica, dona de terras e repleta de ouro e riquezas a Igreja dos apóstolos? Novamente, vemos aqui outra gênese de questionamento que culminará na Reforma Protestante ocorrida na Modernidade.

O misticismo e a religiosidade popular geraram alguns tipos de reação a essa situação:
- uma vertente de pobreza apostólica e de espiritualidade, que não questionou os dogmas e as crenças básicas da Igreja, apenas sua riqueza e ostentação, propondo um retorno aos valores originais ou primordiais da Igreja;
- uma crítica mais radical e dualista que definia essa Igreja como aquela das hostes do mal, por estar envolvida com os bens materiais, a carnalidade e a riqueza.
Tal posição encampou a concepção de origem maniqueísta, heresia já existente desde o século III, de que o mundo era o campo de uma luta entre o bem e o mal, o espírito e a matéria. Os dois grupos de uma maneira geral foram alocados pela Igreja no campo oposto e declarados como inimigos infiltrados no seio da Cristandade, ou seja, como hereges.
A primeira vertente teve duas expressões mais conhecidas e merecem ser analisadas: os valdenses, ou seja, os seguidores de Pedro Valdo (1140-1218), e os franciscanos, ou seja, os seguidores de Francisco de Assis. Uma foi considerada herética e a outra foi incorporada à Igreja e a defendeu com extremo empenho e dedicação. Vejamos ambas separadamente.
Valdésio de Lion, mais conhecido como Pedro de Valdo, era um rico homem de negócios na região de Lion (Lião/Lyon) no centro sul da atual França. Sua espiritualidade gerou nele uma crise existencial e seus seguidores ficaram conhecidos como os "pobres de Lyon". Buscou a paz de espírito no modelo de pobreza apostólica. Entregou a metade de seus bens à sua esposa e filhos para não deixá-los à míngua. Com a outra metade traduziu trechos da Bíblia e da Patrística que se relacionavam com suas ideias e ideais para a língua local, para que os seus seguidores, conhecidos como os pobres de Lion, pudessem ter acesso a uma parte dos textos sagrados, que geralmente não eram lidos ou conhecidos por leigos, mas apenas recitados ou contados pelos clérigos. Tornou-se muito popular e o bispo o advertiu.
Em 1179, Valdésio (Valdo) reuniu uma delegação e foi a Roma demonstrar a sua pureza e sua submissão à Santa Sé. O papa os abençoou, mas advertiu que deveriam aceitar a hierarquia episcopal e se submeter ao bispo local. O que impediu essa inserção dos valdenses foi a questão das pregações públicas, um direito reservado a quem fosse clérigo. Há indicações também de que, para os valdenses, as mulheres, tal como em algumas comunidades cristãs primitivas, poderiam pregar. Não estamos certos deste item, mas o bispo local não lhes deu permissão para pregar e o grupo entrou na marginalidade e foi declarado herético. Apesar das perseguições e de que alguns foram posteriormente julgados e condenados pelo IV Concílio de Latrão em 1215. Os valdenses sobreviveram e existem até nossos dias.
A segunda vertente é bem conhecida. Francisco (1181-1226), nascido na cidade italiana de Assis, era o filho de um rico comerciante e também se sentiu iluminado por Deus a seguir a trilha dos apóstolos e viver em pobreza e simplicidade. Vivendo na época do papa Inocêncio III (pontífice entre 1198-1216), foi admitido como o líder de uma ordem monástica mendicante. Apesar de ter ideias semelhantes às de Valdo e dos valdenses, Francisco e seus seguidores se alinharam sob a hierarquia clerical e se submeteram ao papa. Habilmente conduzida ao seio da Igreja, a ordem franciscana se tornou um dos esteios da expansão e fortalecimento daquela. Admirados pela população e dotados de uma rara espiritualidade, converteram-se em baluarte do papado e da Cristandade.
Outro grupo de mendicantes será criado entre a virada do século XII para o XIII, também sob Inocêncio e em paralelo aos franciscanos, mas sendo desde seu início utilizado para a pregação, o combate as heresias e o ensino nas universidades, sendo esses conhecidos como Dominicanos. Seu fundador foi o hispânico Domingos de Guzman (1170-1221). Durante um trajeto terrestre entre a Península Ibérica e a Itália, o clérigo contatou com populações que haviam assumido o dualismo albigense (abaixo explicaremos) e iniciou uma longa tentativa de evangelizá-los, trazendo- os de volta ao Cristianismo católico.
Seus esforços não redundaram em resultados notáveis, mas dirigiu-se ao papa Inocêncio III e solicitou a criação de uma nova ordem mendicante: os dominicanos. Estes serão célebres nos últimos séculos do Medievo, pois tiveram papel marcante no combate às heresias, no ensino universitário e na coordenação do Santo Ofício da Inquisição, enquanto os Franciscanos eram exímios pregadores do Evangelho.. Nos três casos, a defesa da Igreja e da ortodoxia eclesiástica era o tópico principal.
A heresia que mais abalou a Igreja medieval foi certamente a heresia albigense ou cátara. Essa heresia tinha algum tipo de relação com o dualismo maniqueísta oriundo do Oriente. No Império Romano o maniqueísmo de origem oriental (persa) foi considerado uma heresia e perseguido, antes de o Cristianismo se consolidar como religião associada ao Império e se tornar dominante. Isso, portanto, nos séculos III e V. No período medieval uma nova onda de religiões maniqueístas vem de leste para oeste, vindo da Pérsia(maniqueísmo e mazdeísmo), passando pela Armênia (paulicianos) e chegando à península balcânica (bogomilos).
Todas essas expressões religiosas eram dualistas, aceitando a existência de um deus bom (espiritual) em conflito com um deus mau (material, carnal). Um conflito cósmico no qual os humanos deveriam se inserir e ajudar a combater o mal e libertar os espíritos da carnalidade e da materialidade. Ademais, as heresias, quando combatidas, funcionavam no intuito de estabelecer o monopólio da hierarquia eclesiástica no exercício de suas funções e atacar os inimigos da Cristandade.
O dualismo maniqueísta chegou à Europa e acabou aparecendo no sul da França. Alguns autores não veem tal processo de expansão de leste para oeste e consideram que se trata de uma criação local. Na região conhecida como Languedoc (que abarca todo o sul da França, incluída a Provença e redondezas) havia muitas resistências à Igreja e um segmento clerical mal preparado e inconsistente para combater a “heresia”. Relutamos em denominar essas expressões religiosas como heresia, tendo em vista que essa era a ótima clerical. Sendo assim, a palavra heresia deriva do grego e significa escolha. Logo, nessa percepção, era usada para definir os excluídos ou contaminados com o erro, sob a percepção oficial da Igreja.
Os albigenses, também conhecidos como os anti-Igreja, se expandiram nessa região com facilidade, pois a maior parte da nobreza local era muito crítica ao poder da Igreja e ambicionava se apossar de suas riquezas. Por isso não reprimiam e nem repreendiam os ditos hereges. O rei francês não tinha poder de coerção na região devido à fragmentação feudal e ao poder dos grandes senhores locais. Esse terreno se revelou propício a certo crescimento do catarismo albigense. Os vizinhos cristãos católicos não achavam esta escolha religiosa estranha e conviviam em harmonia com as diferenças. Quando a Igreja percebeu a expansão do dualismo, este estava enraizado na região sul do reino da França.
O catarismo albigense fundamentava suas crenças no conceito de um mundo em que havia dois poderes: um deus bom completamente espiritual e, de outro lado, um deus mau que era o Criador do mundo material e físico. O Deus do Gênesis seria o Demiurgo, criador da materialidade e do mundo que percebemos pelos sentidos e que seria uma espécie de macroprisão, local no qual os espíritos encarnados em corpos carnais eram enclausurados na microprisão do corpo.
O dualismo almejava libertar os espíritos destas duas prisões: os corpos carnais e o mundo material. A Igreja e também os judeus que seguiam o Deus Criador do Gênesis eram seguidores do Demiurgo, do deus carnal e material. A riqueza e a ostentação da Igreja eram mais uma prova de tanto. O catarismo foi considerado pela liderança eclesiástica como muito perigoso e ameaçador, um ferrenho inimigo a ser combatido.
Com o fracasso da evangelização decidiu-se realizar uma expedição armada contra os albigenses do sul da França. O papa Alexandre III, já em 1179 conclamara a realização de uma cruzada, entretanto, cabe ressaltar que o termo cruzada apenas ganha forças no século XIII. Isso se realizou apenas no pontificado de Inocêncio III (1198-1216) em 1208/1209.
Numa primeira etapa os grandes senhores e o rei da França se omitiram de participar, mas a pequena e a média nobreza se engajaram em busca da salvação (havia a promessa de indulgências), de saque e do confisco de bens e propriedades da nobreza meridional e sua outorga aos nobres sem posses ou secundogênitos sem direitos a herança. Além disso, o próprio Papa Inocêncio II ofertou suas terras como heranças para aqueles que participassem de tal cruzada.
A cruzada alcançou o sul da França e batalhas foram travadas. Uma delas foi o cerco a Beziers, que originou uma versão polêmica e repetida através dos tempos, mesmo se não completamente comprovada. Diz-se que no interior da cidade cercada havia tanto os fiéis cristãos católicos quanto os considerados hereges cátaros albigenses. Os soldados, receosos de abater indiscriminadamente todos sem distinguir os que eram bons cristãos e os que eram heréticos, consultaram o legado papal, que não receou em dizer:
“Entrem na cidade e não temam em chacinar a população. Deus recolherá os justos cristãos e deixará ao Diabo os pecadores heréticos.”
A população foi massacrada de maneira ampla e sem piedade. A Cruzada teve sucesso parcial e alguns nobres do norte tomaram senhorios da nobreza do sul, como Simão de Monfrote ao participar da cruzada à Toulouse e receber as terras do albigense Raimundo Rogério Trencavel. Oficialmente se encerrou em 1213. A última fortaleza albigense denominada Montsegur veio a ser tomada somente em 1244.
O rei francês intervém e aproveita a repressão para se infiltrar no sul e reocupar os espaços concedidos aos senhores do Languedoc. Junto virá a Inquisição e a repressão aos albigenses se ordena e se sistematiza. A Inquisição medieval foi entregue à ordem dominicana, que não permitiu que as manifestações, consideradas heréticas pela Igreja, progredissem e se espalhassem.
Outro espaço de combate às heresias foram as universidades medievais, nas quais os dominicanos, especialmente, mas também outros monges, beneditinos ou franciscanos, ensinavam a fé verdadeira e combatiam heresias e infiéis em suas leituras, escritos e debates. Analisaremos as universidades no penúltimo capítulo.
3.9 O papado entre o Cativeiro de Avignon e o Grande Cisma
A Igreja hegemônica e dominante consolidou seu poder e prestígio nos séculos XII e XIII sob as cruzadas e no impacto da superação do imperador pela Igreja na polêmica das Investiduras. Assim, esses movimentos serviram, para além dos fatores políticos e econômicos, para a propagação da cristianização além do Ocidente.
Os pensadores eclesiásticos predominaram na defesa de um conceito denominado em latim de plenitudo potestatis e que traduziremos livremente por plenitude do poder. Embasada nas afirmações de Paulo de Tarso (Epístola aos Romanos) e na doutrina gelasiana (papa Gelásio define a separação dos poderes, v. acima), a Igreja definiu que se todo poder vem de Deus e se a Igreja é representante de Deus no mundo e a única que dialoga diretamente com a divindade, ela teria a legitimidade e a representatividade de se colocar acima do Império e dos reinos.
Legitimidade
A legitimidade é o direto de ostentar um cargo político ou religioso, que pode ser obtido através de diversas formas. O autor Walter Ullman (2008) explica que o poder político tem duas formas principais de consolidação de sua legitimidade:
- a ascendente;
- a descendente.
A primeira pode ser obtida de variadas maneiras, mas sempre emana de baixo para cima. Um dos exemplos é a eleição de um líder militar por uma assembleia de guerreiros, seja antes ou depois de uma conquista, seja no ensejo de consolidar uma posição. Também o poder político obtido em eleições de qualquer tipo, sob um sistema democrático ou controlado, é do tipo ascendente.
A segunda forma de legitimação é a descendente e se embasa na recepção do poder por outorga de Deus ou dos deuses, através de seu(s) representante(s) na Terra.
Essa concepção foi contestada por autores como João (Jean) de Paris, Guilherme de Ockham e Marsílio de Pádua, que já citamos. Essas teses que pretendiam definir diferentes espaços de atuação para o poder secular e para o poder eclesiástico concebiam a Igreja dedicada às questões espirituais e distante dos temas políticos. Marsílio, por exemplo, considerava a Igreja como um coletivo de fiéis, que ele denominava “corpo místico de Cristo”, e cuja formação fora coletiva (apóstolos) e embasada numa forma mais ampla e participativa e não numa Igreja monárquica. Tomava corpo uma concepção denominada conciliarista que apregoava que os bispos e cardeais deveriam dirigir a Igreja, lado a lado com os papas.
O conflito entre a Igreja hegemônica e os monarcas teve um momento de crise quando se confrontaram o papa Bonifácio VIII (pontificado entre 1294 e 1303) e o rei Felipe IV (reinou de 1285-1314), denominado o Belo. O papa enfatizou a sua plenitude do poder e sua condição superior em relação aos imperadores e reis, através de uma bula em 1296, que proibia o pagamento de taxas aos reis ingleses e franceses por parte dos clérigos.
O rei francês efetivamente desejava se apossar das cobranças de dízimos e taxas pela Igreja em território francês, assim reagiu proibindo a exportação de metais preciosos para fora do reino. Enquanto isso, Eduardo I (1239-1307), retirou a proteção real aos membros da Igreja. papa foi sequestrado e maltratado em Anagni e veio a morrer em 1303. O rei francês conseguiu que um bispo francês fosse eleito papa Clemente V (pontificado de 1305 a 1314) e este transferiu a Cúria para uma cidade no sul da França, denominada Avignon (Avinhão), na Provença.
Com a nomeação de mais nove cardeais franceses, o papado se estabeleceu nesse local. Essa mudança de localidade reflete também na vontade de Felipe IV em controlar o clero estabelecido, agora, nos territórios do Reino da França. Alguns autores denominam esse período como Cativeiro de Avignon, estabelecendo um paralelo com o Exílio da Babilônia pelos judeus conquistados pelos babilônios e a Igreja exilada pelo rei francês e mantida longe de Roma. Alguns autores denominam esse período como Cativeiro de Avignon, estabelecendo um paralelo com o Exílio da Babilônia pelos judeus conquistados pelos babilônios e a Igreja exilada pelo rei francês e mantida longe de Roma.
papado permaneceu em Avignon entre 1309 e 1378. Em meio à Guerra dos Cem Anos, o papa Gregório XI retorna a Roma e, lá, vem a falecer. A população romana pressiona o colégio de Cardeais a eleger um novo papa, Urbano VI (1195-1264), que assume o papado em Roma. Devido a atitudes arbitrárias desse grupo de cardeais, entre os quais os cardeais franceses, elege-se outro papa, Clemente VII (1342-1394), em 1378, que retorna a Avignon.
A partir desse embate entre os poderes de Roma e França começa o Grande Cisma da Igreja, sendo Clemente VII conhecido como o Antipapa. Duas sedes e dois papas simultâneos. E os temas políticos se imbricam no Cisma. A França, Castela, Portugal, Escócia, Saboia, Aragão, Áustria, e Navarra apoiam Clemente e os papas que lhe sucederam em Avignon. De outro lado, a Inglaterra, o Império, Flandres, os estados escandinavos, a Hungria, a Boêmia, a Polônia e os estados italianos reconheciam Urbano e seus sucessores. Uma ampla e articulada propaganda dos dois lados estigmatiza o outro lado. Isso enfraqueceu ainda mais a Igreja. Muitos sugeriam a reforma da Igreja, sua moralização e o conciliarismo como saídas.
Uma tentativa de reunificação complicou mais o panorama. Um concílio reunido em Pisa em 1409 demite os dois papas e elege um novo: Alexandre V (1340-1410). Nenhum dos outros papas se considera demitido e por meia década teremos três papas. imperador Sigismundo convoca o Concílio de Constança (1414 a 1417), que demite os três postulantes e elege um único papa Martinho V (pontificado de 1417 a 1431). O Cisma gerou muita divisão e enfraqueceu o papado. A reforma não ocorrerá, pois os papas do século XV são monárquicos e muito próximos do estilo renascentista de viver e governar. Isso convergirá na maior crise da Igreja, que foi a Reforma Protestante. Este tema, no entanto, extrapola nossa periodização.
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- O conceito da Trindade é um dos pilares do Cristianismo, constituindo-se em um dogma, pelo qual no Deus único há três “substâncias”: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus seria uno e trino a um só tempo, e não haveria uma hierarquia ou existência prévia de nenhum deles. [Ver no texto]
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- Sincretismo é a mescla de conceitos relacionados a duas ou mais vertentes espirituais/religiosas, criando, ora numa, ora noutra, conceitos e expressões religiosas provenientes de doutrinas por vezes opostas e conflitantes.[Ver no texto]
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- A pax deorum dependia do culto público aos deuses cívicos da Roma republicana ou imperial; agradá-los para não os colocar contra o bem-estar da sociedade romana. As vitórias e a paz dependiam da vontade divina. Isso foi transladado para o culto cristão. As heresias passaram a ser consideradas como uma ameaça à paz de Deus e risco de desequilíbrio à segurança do Estado romano.[Ver no texto]
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- Muitos teólogos, denominados até esse período como PADRES DA IGREJA, concebiam um casal sagrado: o esposo seria Cristo e a esposa e sua representante única na Terra, seria a Igreja. [Ver no texto]