Introdução Idade Média? Era de Trevas?

Caros alunos, apresentamos este livro sobre a Idade Média como um esforço de reflexão sobre um período da História que é clássico, importante e controverso. este curso de História, inicialmente, gostaríamos de chamar sua atenção sobre a própria denominação do período. Por que uma Idade “média”? Seria um momento da História entre dois períodos? Seria um período entre duas temporalidades? Haveria um sentido valorativo ou depreciativo nessa designação?
Para responder a essas questões, em primeiro lugar, devemos considerar que os historiadores e os pensadores responsáveis por classificar o período como Idade Média já não viviam mais nele e o depreciavam. Desse modo, o termo Idade Média é uma rotulação a posteriori ao próprio período. O conceito carrega em si um teor preconceituoso e de desprezo, sendo criado no século XVI, como negação ao período anterior. Foi reforçado no século XVII pelo francês Charles Fresne Du Cange e pelo alemão Christoph Keller, ganhando ampla conceituação. Logo, a maior parte desses estudiosos, com notáveis exceções, consideram a época como uma era das Trevas. Em segundo lugar, chamamos atenção para o fato de que se deve considerar a alteridade como característica fundamental de todas as sociedades. O olhar do historiador sobre o “outro” e o “diferente” não pode comportar noções preconceituosas sob o risco de transformar nosso ofício num tribunal injusto e opressor
Entretanto, para identificar a razão de a Idade Média ter sido objeto de tanta depreciação, tentaremos identificar em linhas gerais seus principais detratores. Esse movimento que se iniciou nos séculos XV e XVI, tinham como pensadores homens que se identificavam com a civilização clássica, a saber, o período greco-romano, e a comparavam de maneira pejorativa com o período que denominaram de “medieval”. Ansiavam restaurar a beleza da arte greco-romana, que enfatizava os corpos atléticos e a beleza física, assim como trazer às artes temas da mitologia do período em questão. Buscavam também separar esse belo da sua relação com o religioso e, assim, ampliar e libertar o pensamento sob o signo da filosofia presente no período medieval, mas que estava atrelada à teologia. Dessa maneira, os humanistas do Renascimento queriam restaurar o direito romano (igualdade perante a lei, justiça e propriedade privada), fortalecendo esse ideal através dos estados nacionais que ora renasciam. Portanto, buscavam reduzir a inserção do clero na legislação do cotidiano, da cidade e do reino, ao diminuir o controle social da Igreja e repassando-o para os estados e governantes. Podemos afirmar que os responsáveis por titular esse tempo de Idade “Média” foram, principalmente, os humanistas, os artistas e os pensadores do Renascimento.

Mas o que foi o Renascimento? Entre uma diversidade de interpretações e explicações, pode-se dizer que foi um movimento que buscava o retorno dos padrões e valores da cultura clássica da Antiguidade e de condenação do período medieval. Assim denegriam o Medievo, considerando-o uma era de Trevas, dominada pela Igreja, irrelevante e obscura e que não legara nada ao Ocidente europeu. O segundo agrupamento a dar um sentido aviltante ao Medievo ocorreu entre os séculos XVIII e XIX. Eram pensadores também críticos ao clero e às instituições surgidas na Idade Média. Um historiador do período, Jacob Burckhardt (1860), na obra A civilização do Renascimento na Itália, ao exaltar os avanços da Renascença, destacando os defeitos do pensamento medieval por meio da condenação da predominância do viés religioso cristão. Dessa forma, em dois períodos subsequentes, o Medievo foi representado como uma era de trevas. Isso não é uma verdade absoluta e merece sua atenção e reflexão. Trata-se de uma avaliação que demonstra ter um fundo ideológico.
A polarização e o hábito de exaltar um grupo, um partido ou uma ideia fazendo o uso da estigmatização do oposto ou diferente é uma atitude comum em todos os setores da vida, em todos os lugares e tempos. Bem X Mal; Deus X Diabo; espiritual X material; Eu x Outro são exemplos dessa classificação em termos de alteridade. Essa maneira de definir uma identidade positiva e alocada no campo do bem através do uso de uma alteridade (alter = outro) definida de maneira negativa e associada à malignidade é perigosa e tendenciosa. Há aspectos positivos e negativos em todos os períodos. O período medieval, ao contrário do proposto pelos pensadores acima elencados, foi bastante importante na construção do Ocidente e do mundo moderno, legando saberes e técnicas, e não apenas um período de obscuridade.
O mundo greco-romano se baseava no trabalho escravo e os homens livres podiam se dedicar à política, ao culto da mente e do corpo. Este conjunto definia um conceito denominado otium (ócio), que era um privilégio dos homens livres e cidadãos. A escassez de escravos no final do período imperial foi um dos motivos da queda do Império Romano do Ocidente.
No Medievo também houve exploração de mão de obra servil e até mesmo resíduos de escravidão, mas havia prolongados vazios demográficos que geravam falta de recursos humanos. Por isso verificaram-se importantes avanços, por exemplo, na busca de novas formas de aproveitamento do solo, por meio da implementação de técnicas agrícolas e artesanais. Os grandes desenvolvimentos dos últimos séculos da Idade Média possibilitaram, contraditoriamente, sua própria superação, a transformação e o rompimento do sistema. Sem o Medievo não haveria Renascimento, que herdou do período anterior os progressos técnicos e suas descobertas. Sem o Medievo não haveria a Instituição da Universidade, que é o exemplo ideal para a quebra do estigma de que o Medievo foi uma época sombria. Paradigma essencial e mecanismo argumentativo que pode e deve ser usado no combate ao senso comum que atrelou a Idade Média à Idade das Trevas, viés que ainda e infelizmente se perpetua nos livros didáticos e no imaginário social. Uma colonialidade ideológica que permanece em nós até hoje.
Diante desse cenário, nossa função como educadores é a de defrontar esse preconceito em sala de aula. Desse modo, foram nessas instituições que o debate floresceu como método de ensino e hoje utilizado de várias outras formas, inclusive como ferramenta de interação social pela qual os sujeitos expõem suas reflexões. É o debate que conecta os homens e que promove o diálogo e ser omisso em situações que o requerem é uma forma de ignorância. Nesse sentido, contrariando o senso comum afirmamos: não estamos voltamos à Idade Média, pois de sombrio esse período nada possui. A Universidade é a criação mais valiosa e original do Centro-Medievo. É um patrimônio histórico que deve ser preservado atualmente e por toda a existência da humanidade. Se for para nós rotularmos ao Medievo que seja ao legado das Universidades e não ao estigma sombrio perpetuado pelo imaginário do senso comum. Foram instituições promotoras de debates e que estiveram permeadas por transformações orgânicas globais, assim como estiveram abertas ao diálogo e conferiram razão ao diferente agora digno de atenção.
Neste livro tentaremos abordar exatamente o legado da Idade Média, cuja contribuição vai muito além do fato de ser o intermediário entre a Antiguidade e o Renascimento. É um período surgido mediante transformações orgânicas como a difusão do Cristianismo, as migrações bárbaras, o fortalecimento da aristocracia rural e à descentralização o poder político. Nesse sentido, alertamos, porém que não deixaremos de apresentar suas idiossincrasias e contradições de modo que possamos construir um conhecimento crítico, mas de modo algum preconceituoso.